sexta-feira, 9 de novembro de 2007

Kuhlmann e a poesia místico-combinatória

Kuhlmann, poeta barroco alemão, prostrou-se, no alvorecer da idade adulta, diante de distúrbios alucinatórios decorrentes de uma indelével enfermidade. Conta-se que, no cume de seus delírios, viu-se rodeado por inúmeros demônios viscerais. Em seguida, em lugar sereno, viu a imagem de anjos, de Deus e de Cristo no meio. A partir de então, uma luz circular ao seu lado esquerdo doou-se a acompanhá-lo sempre, e Kuhlmann passou a confundir-se em um múltiplo e eterno jogo de teias e espelhos interiores inefáveis, experiências intimistas para ele intraduzíveis.

Emaranhado de sentimentos, Kuhlmann emancipou sua criação. As visões febricitantes que tinha canalizaram sua poesia em um paradoxo: tornaram-se mais racionais e menos sublimadas. A inexorabilidade de suas experiências sensoriais e visionárias edificou uma poesia da loucura, em que um único poema poderia ser provido de mais de seis bilhões de combinações possíveis.

41 beijo de amor/a alternância das coisas humanas é fôrma dessa matéria de pluralidade de sentidos. Neste poema, o perspectivismo lúcido de Kuhlmann revela a universalidade do amor e das vicissitudes da vida humana, recusando-se sempre a lacunizar-se em uma poesia simplista ou reducionista.

Segundo o poeta-escafandrista Augusto de Campos, Kuhlmann é precursor da arte combinatória, que teve seu auge no século XX com Raymond Queneau, e mesmo da arte digital. A construção permutatória de Kuhlmann é uma espécie de alto-forno poético, coral místico em que se aglutinam a fragmentação simétrica e sarais de sentidos sobressaltantes, escumando-se pelas bordas da poesia.


41 beijo de amor
A alternância das coisas humanas

Tradução: Augusto de Campos

Pós noite/pez/ardor/gelo/som/mar/sol/sal/gris/raiz/trom/praga/fogo/ e horror,
Vêm dia/brau/frio/flux/psiu/cais/sul/sede/cães/flor/fim/dom/água/ e canção.
Pós cris/breu/ruir/medo/guerra/ais/cruz/luto/ira/mal/pena/ruim/vaia/ ou dor,
Já sol/alba/fruir/suor/paz/rir/graal/gala/amor/bem/dó/bom/loa/ estão.


Qual lua/grou/rio/um/mar/pó/val/voz/pá/pé/cão/mó/rã/ com calor
Atrás de luz/voar/voz/par/nau/ar/flor/tom/chão/lã/mão/grão/rio/ irão,
Tal nó//mãe/mau/nau/meu/réu/vir/rei/clã/frei/juiz/sem/Deus/ e valor
Pedem mão/pai/pau/vau/teu/lei/lar/ás/grei/sé/fás/mais/fé/ e ação.


Quem vai/fiel/são/ter/ir/lá/com/cal/três/sim/sus/ar/céu/ amar
Buscam vem/cruel/pus/ser/vir/cá/sem/pez/mil/não/sub/chão/rés/ em vão.
Nem têm cem/prol/tez/nu/vez/mor/bom/léu/jus/rir/voz/lis/mel/ lugar
Onde só/dor/giz/véu/viés/pior/vil/lio/caos/guao/pio/noz/fel/ são.


Tudo muda; tudo ama; tudo quer tudo combater:
Só quem medita neste lema alcançará o saber.




Quirinus Kuhlmann

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